domingo, 9 de março de 2008

Somos dominados por genes ou por mal-entendidos?

Por Isabella Bertelli Cabral dos Santos e Marco Antônio Corrêa Varella.


Isabella Bertelli Cabral dos Santos é graduanda em Psicologia pela USP e bolsista em Iniciação Científica pelo CNPq em Psicologia Experimental. Possui o blog Científica Mente e é minha namorada.


A livre interpretação dos estudos formulados à luz da Psicologia Evolucionista tem provocado uma série de idéias equivocadas acerca do comportamento humano e da própria disciplina.



A Psicologia Evolucionista é uma área recente que tem enriquecido a investigação dos processos psicológicos e promovido o entendimento de inúmeros aspectos do comportamento humano. Como em toda ciência, existem muitas críticas pertinentes a ela. Contudo, grande parte das controvérsias com freqüência decorre de preconceitos e mal-entendidos por parte de pesquisadores de outras áreas, divulgadores científicos e do público em geral. É comum resultarem interpretações equivocadas, comumente veiculadas pela mídia, a partir de estudos realizados sob essa linha teórica.



Você já deve ter visto manchetes como “A linguagem é inata”, “Infidelidade está nos genes”, “Mães não teriam amor aos filhos, e sim à sua herança genética”, só para citar alguns exemplos. Ou provavelmente já leu alguma matéria sobre a evolução das diferenças entre homens e mulheres e achou tudo uma grande bobagem, pois isso nada tem a ver com genes, e sim com a cultura. Dizer que existem aspectos comportamentais herdados parece uma tentativa de naturalizar as diferenças e, portanto, de justificá-las. Mas será que é isso mesmo?

Teste seus conhecimentos sobre a Psicologia Evolucionista descobrindo o que ela não é.


A Psicologia Evolucionista...
  • ... não diz que comportamentos adaptativos estão presentes no nascimento.



Essa visão inatista extrema não faz sentido nem para as adaptações anatômicas. Bebês recém-nascidos não têm dentes, barba ou seios, o que não implica em dizer que “aprendemos” a ter dentes, barba ou seios. Esses são produtos da evolução e isso inclui sua maturação e desenvolvimento também. Então, eles se desenvolvem no período em que promovem sua vantagem adaptativa: no caso dos dentes, depois do desmame, e no caso de barba e seios, na puberdade. O mesmo argumento é válido para o desenvolvimento de comportamentos humanos como gostar do sexo oposto e ajudar parentes. Não é porque nascemos sem interesse em escolher parceiros amorosos que formação de casais em humanos não envolve instinto algum;


  • ... não diz que nosso comportamento é geneticamente determinado.


Genes não são deterministas implacáveis como no caso das ervilhas de Mendel. A expressão dos genes durante o desenvolvimento do sistema nervoso e durante o funcionamento de nosso cérebro muda constantemente em resposta a acontecimentos fora de nosso corpo. Os genes provêem os mecanismos para a experiência porque constroem os dispositivos cognitivos que nos capacitam a obter informações do ambiente. Temos propensões genéticas para aprendermos facilmente a falar em uma idade muito precoce, mas se não tivermos contato com falantes nós não aprendemos a falar. O que não implica em não sermos capazes de aprender outras línguas em outras idades. Não é porque não nascemos falando português que a linguagem não envolve predisposições cognitivas, assim como não é porque temos propensões cognitivas para aprender a linguagem quando crianças que não aprenderemos outros idiomas em outras idades;



  • ... não diz que não temos flexibilidade comportamental.


Ter adaptações mentais não significa dizer que sempre faremos e agiremos do mesmo jeito. Pense em computadores. Imagine qual computador é mais flexível e faz mais coisas diferentes e de forma variada: aquele que não tem quase nenhum programa instalado e tem muita memória livre, ou aquele que já vem com muitos programas instalados? É claro que o mais flexível é aquele com mais programas diferentes instalados. Para o comportamento é a mesma coisa. Parece contra-intuitivo falar que se fossemos tábulas rasas não teríamos quase nenhuma flexibilidade comportamental. Mas ao pensar nos computadores fica claro que quanto mais módulos mentais tivermos, mais flexível e pluralista será nosso comportamento. Dizer que temos um programa de edição de texto ricamente instalado não implica em dizer que independente do que for digitado sempre sairá o mesmo texto da impressora;



  • ... não diz que comportamentos são adaptações.



Comportamentos podem ser adaptativos, mas não herdamos diretamente comportamentos especificamente codificados ou programados. Nós herdamos as estruturas cognitivas, ou módulos mentais, que são as adaptações referentes ao comportamento. E são os módulos mentais na sua interação com o ambiente em que vivemos que produzem comportamentos dentro de cada contexto cultural. Voltando ao paralelo do computador, o que é herdado, ou seja, o que vem de fábrica não é o texto impresso, mas sim o programa de edição de textos. Portanto, o foco não recai sobre o comportamento manifesto, mas sim nas estruturas cognitivas que o geraram;



  • ... não diz que não precisamos aprender nada.

Pensar que instinto e aprendizagem são coisas opostas, excludentes ou inversamente proporcionais é um erro muito comum. Trata-se do velho debate inato x aprendido. Justamente porque temos instintos é que somos capazes de aprender. Não somos umas espécie que aprende muito por que temos menos instintos, mas sim por que temos muitos. Os módulos mentais são abertos e ávidos por informações ambientais. Portanto, é pela via do aprendizado que manifestamos nossa natureza, e pela via da natureza que temos as propensões para aprender conteúdos culturais e assim participar do mundo social. No paralelo do computador é fácil perceber que até o programa de edição de texto está preparado para aprender, pois inserimos novos tipos de fontes, novas figuras. O programa aprende até palavras novas, se as adicionamos ao dicionário. E isso possibilita inclusive a impressão de mais textos diferentes, a partir de um único programa;



  • ... não diz que a cultura não é importante.

Como a Psicologia Evolucionista reconhece que temos muitos módulos mentais, que são abertos e calibráveis, ou seja, plásticos e maleáveis pelo ambiente, e ainda, especializados em gerar e processar conteúdos culturais, segundo sua perspectiva, o ser humano é biologicamente cultural. A cultura não é algo antinatural alheio à biologia humana. A cultura é parte essencial da natureza humana, influencia e é influenciada por nossas adaptações mentais. Portanto, a diversidade cultural não é a prova de que o comportamento humano independe de adaptações mentais, mas sim de que nossas adaptações mentais são ricamente voltadas para os contextos culturais em que crescemos;



  • ... não diz que as pessoas são idênticas nos comportamentos.

Assim como todas as pessoas têm um coração, dois pulmões, dois olhos e um estômago, todas as pessoas têm as mesmas adaptações cognitivas. A história de vida e o contexto ecológico-cultural de cada pessoa influencia seus órgãos, o que faz com que esportistas tenham coração e pulmões diferentes de fumantes. Assim como as adaptações mentais de cada pessoa também são fruto de uma interação única com seu ambiente, o que torna cada pessoa única. Mesmo que duas pessoas brasileiras tenham as mesmas adaptações mentais voltadas ao aprendizado da linguagem, e tenham o mesmo contexto cultural da língua portuguesa, elas podem ter sotaques e gírias diferentes segundo as regiões específicas em que cresceram. E isso não é a prova de que elas não têm adaptações mentais igualmente, mas sim de que suas adaptações mentais são abertas à informação ambiental que varia de região pra região;



  • ... não diz que comportamentos adaptativos estão fora de nosso controle.

A Seleção Natural moldou filogeneticamente adaptações mentais que geram tanto comportamentos adaptativos mais controláveis – como a detecção de trapaceiros e a escolha de parceiros –, quanto os mais incontroláveis – como os medos. Decisões rápidas frente a riscos reais de morte, assim como medo de cobra ou de altura, são em geral mais incontroláveis, já que uma informação ambiental específica potencialmente letal dispara a reação adaptativa. Mas o fato de serem adaptativos e pouco controláveis não implica a impossibilidade de agirmos de modo a minimizar seus efeitos negativos. Saber qual informação ambiental influencia o aparecimento de tal comportamento – como ver uma cobra ou olhar para baixo na roda gigante – aumenta nossas chances de controlar por antecipação nossas tendências incontroláveis;



  • ... não diz que todo comportamento atual é adaptativo.



Nossos módulos mentais foram selecionados no ambiente ancestral, ou seja, no ambiente de nossa adaptabilidade evolutiva e não no ambiente moderno e tecnológico atual. Então, pelo viés da Psicologia Evolucionista muitos de nossos comportamentos atuais são compreendidos como não adaptados, por estarmos deslocados de nosso ambiente natural. Alguns comportamentos que eram adaptativos no ambiente ancestral atualmente podem não ser, a exemplo de comer doces e gordura em excesso. No ambiente ancestral era adaptativo acumularmos o máximo possível de calorias em uma única refeição, pois não havia abundância de alimentos tal como ocorre hoje. Outros exemplos vão no sentido oposto. É o caso da prática de atividades físicas. Fomos selecionados em um momento em que fazíamos grande quantidade de exercícios físicos, pois o modo de locomoção era andar. Contudo, hoje, no ambiente urbano, sobretudo, há disponíveis facilidades como os vários tipos de veículos e até mesmo dispositivos como as escadas rolantes que auxiliam a locomoção humana. Isso implica em pouca mobilidade física e acaba gerando riscos para a saúde;



  • ... não diz que as adaptações são perfeitas.

Mesmo se estivéssemos em nosso ambiente ancestral vivendo como caçadores-coletores nossas adaptações mentais seriam falíveis e imperfeitas. Se a seleção natural mantivesse um perfeito medo de cobras de modo a que as pessoas jamais saíssem de suas casas, seriam drasticamente reduzidos os casos de mortes por picada de cobra. No entanto, haveria um custo alto a pagar: a capacidade exploratória humana seria inexistente, o que resultaria em falta de alimento, e conseqüentemente nos levaria à morte. As adaptações não são perfeitas porque se fossem muito eficazes seus custos ultrapassariam seus benefícios à sobrevivência e à reprodução. Além disso, as pressões seletivas são cegas quanto a um objetivo final a ser atingido futuramente pela adaptação. Sendo assim, o modo como um problema adaptativo foi solucionado pela seleção natural, ou seja pelo relojoeiro cego, quase nunca equivale àquele pelo qual um engenheiro o solucionaria, partindo do zero e pensando em simplicidade, eficiência e economia. Somado a este fato, não se pode esquecer que as adaptações nunca são exatamente iguais dentro da população, ou seja, mesmo se ela tiver atingido um nível ótimo, este nível será melhor para alguns do que para outros, pois sempre existe uma variação individual, que é a matéria-prima da evolução;



  • ... não diz que há genes para o egoísmo.

A abordagem do gene egoísta não é uma abordagem molecular para o egoísmo. O gene egoísta não é “aquilo” que pessoas egoístas têm. Muito menos a teoria diz que todos os genes têm desejos conscientes egoístas, como se eles só “pensassem” em si próprios. Os genes não possuem desejos conscientes. Eles simplesmente se auto-replicam. Aqueles que não se auto-replicaram não sobreviveram e não estão representados hoje. O padrão de auto-replicação cega produz resultados que por vezes são interpretados como se determinados genes tivessem interesse em ser mais representados nas próximas gerações. Tais genes não “têm” realmente esse interesse, mas agem cegamente como se tivessem. Trata-se de uma analogia com os interesses humanos. Usa-se a voz ativa e coloca-se intenção pessoal onde não há;


  • ... não diz que as pessoas inconscientemente visam aumentar a replicação de seus genes nas gerações seguintes.

Confundir os interesses dos genes com os das pessoas é uma das principais confusões feitas com a Psicologia Evolucionista. Exemplo: “O adultério não pode ser uma estratégia para propagar os genes egoístas, pois os adúlteros tomam providências contraceptivas”. O desejo sexual e o desejo de ter filhos não são uma estratégia das pessoas para propagarem seus genes. São uma estratégia das pessoas para obter os prazeres do sexo e os prazeres de serem pais, e esses prazeres são a estratégia dos genes para propagarem-se nos filhos. Gene egoísta não implica em uma pessoa que faz tudo pensando em seus genes. As pessoas não pensam no que seria melhor pra seus genes, elas simplesmente comem pelo prazer de comer, pra matar a fome e por qualquer outra crença e desejo. Já os genes modelaram o desejo de comer quando se replicaram em pessoas que se alimentavam bem e conseqüentemente sobreviviam e reproduziam. O interesse dos genes e o interesse das pessoas estão separados por diferenças gigantescas em unidades de tempo. O interesse pessoal é pautado pelo hoje, ontem, amanhã, mês que vem, vida toda, enquanto o interesse do gene é pautado pela persistência de pressões adaptativas em sucessivas gerações no ambiente ancestral ao longo de milhões de anos;



  • ... não diz que não somos livres.

Como você pôde perceber, nós vivemos em uma unidade de tempo mais rápida que a de nossos genes. Isso implica em não sermos dominados e controlados por eles. Somos livres para escolher não comer doces, se assim quisermos, e livres para seguir o propósito de não ter filhos, se assim o desejamos, livres para abdicar do sexo e até da própria sobrevivência. Temos esses pequenos viéses herdados em comer doce, ter filhos, praticar sexo e sobreviver, o que torna mais provável realizarmos tudo isso e mais difícil resistir a esses comportamentos, por sermos herdeiros de ancestrais que sobreviveram a ponto de deixar descendentes. Tais propensões foram moldadas no ambiente ancestral e não no atual. Então somos livres para fazermos o que bem entendermos agora com nosso corpo e com nossa mente.



  • ... não é sexista ou machista.

A Psicologia Evolucionista vem descobrindo muitas diferenças psicológicas inéditas entre homens e mulheres. Essas descobertas têm gerado confusão e muitos apregoam ser esta uma teoria baseada em machismo ou sexismo. Essa confusão vem de três problemas: Primeiro, a generalização ingênua. Assim, dizer que os homens são, em média, maiores que as mulheres não significa que todos os homens sejam mais altos do que todas as mulheres. Dizer que as mulheres têm mais fluência verbal que os homens não quer dizer que todos os homens sejam praticamente mudos. Depois vem o preconceito. O preconceito ocorre quando ingenuamente julgamos a priori uma pessoa pela média dos atributos de seu grupo. Dizer que homens têm mais facilidade para a localização espacial não habilita ninguém a destratar, desmerecer ou desqualificar uma mulher por seu modo de dirigir. Finalmente vem a confusão entre diferença e desigualdade. Nenhuma diferença anatômica ou mental entre homens e mulheres implica qualquer julgamento de valor. Todos os seres humanos devem, por princípio, ter iguais direitos e oportunidades. Não há incompatibilidade entre sermos diferentes e termos garantias de igualdade de direitos;



        • ... não embasa julgamentos morais, nem justifica nossas ações.


        Confundir explicações científicas com recomendações ou justificativas morais é o erro mais perigoso, por seu forte conteúdo emocional. É conhecido como falácia naturalista e implica numa nivelação equivocada entre o “é” das explicações descritivas e o “deve ser” das recomendações morais. Enquanto cientistas – cientes de que todo conhecimento tem um grau de incerteza – usam o verbo “dever” no sentido de “haver uma probabilidade de” para explicar a previsão de uma possibilidade, como na frase “Se existirem componentes herdáveis na propensão ao estupro e se alguns estupros tiverem gerado filhos, então deve ter havido uma pressão seletiva favorecendo as propensões envolvidas no estupro”; Outras pessoas ouvem o verbo “deve” no sentido de “ser moralmente preferível” e acusam esses pesquisadores de estar justificando, ou naturalizando um ato brutal e criminoso, o que não é verdade. Não somos escravos das adaptações mentais, uma vez que a própria seleção por flexibilidade de repertório conforme o contexto favorece um controle consciente dos nossos comportamentos, como a infidelidade. E, sendo um ato consciente, ele não isenta a culpabilidade daqueles que, ao satisfazerem seus desejos irresponsavelmente, expõem parceiros a danos à saúde pelo sexo desprotegido e à confiança pela traição. Nossas propensões mentais não são desculpa para nenhum ato danoso;



        Causas apontadas

        Por que esses mal-entendidos acontecem com tanta freqüência? Provavelmente não existe uma resposta única. Diferentes explicações foram dadas, não necessariamente excludentes.



        A primeira fonte de explicação foca a causa dos mal-entendidos em nossos próprios padrões cognitivos de processamento de informações. Temos a tendência a simplificar qualquer informação para reduzir a demanda por recursos cognitivos e um forte desejo de gerar previsões a partir de casos específicos, o que nos faz incorrer na generalização. Quando esses padrões cognitivos são usados na tentativa de entender a relação entre gene, ambiente e comportamento, facilmente caímos nas supersimplificações como “gene gay” ou “gene da felicidade”, na tentativa de se aplicar o modelo mendeliano, que é simples, ao comportamento, que não o é. O desenvolvimento ontogenético é uma complexa interação singular entre genes, seqüência temporal dos ambientes externos e eventos aleatórios. Por isso, ainda não foi desenvolvido um modelo didático para descrever a influência genética no comportamento de forma lógica, como no modelo mendeliano, em que um gene é igual a uma característica.




        Outra fonte de mal-entendidos envolve a aparente simplicidade da teoria da evolução. A facilidade de apreender o conceito de seleção natural leva as pessoas a pensar que entenderam completamente a evolução depois de um rápido contato com a teoria. Saber o modo darwinista de explicar o tamanho do pescoço da girafa não garante pleno entendimento do evolucionismo, principalmente quando aplicado ao comportamento humano.




        Isso contribuiu para o aparecimento de abusos que se seguiram ao surgimento da teoria da evolução, pautados em mal-entendidos. Nessa época, a teoria de Darwin ainda não contava com a genética, com estudos sobre comportamentos sociais de animais, com análises de custos e benefícios para as adaptações e nem com estudos sobre a cognição. Isso não permitia um arcabouço teórico adequado para o entendimento do comportamento humano sob bases evolutivas.


        Além disso, a crença na pretensa neutralidade da ciência e o entusiasmo de sua aplicação à sociedade gerou abusos sociais. Um grande abuso, que comprometeu a reputação do evolucionismo perante as ciências humanas, foi o caso do darwinismo social por suas extrapolações equivocadas de idéias ditas evolutivas, mas que eram, no fundo, colonialistas, capitalistas selvagens, fascistas e racistas.



        A reação a esses abusos foi o surgimento de uma longa tradição de negação da natureza humana nas Ciências Sociais do séc. XX e um isolamento conceitual, em que se considerava tudo o que envolvesse genes e comportamento como errôneo e contrário à liberdade. Surgiu daí a idéia de que a causalidade biológica é determinista e ruim, enquanto a causalidade ambiental preserva o livre-arbítrio, e, portanto, é boa. Você já deve ter ouvido comentários pejorativos sobre a "biologização" do comportamento e quão "determinista", "fatalista" e "ingênua" é a visão biológica do comportamento humano.


        Valores morais e condição animal


        No âmago de todas essas controvérsias sempre esteve um grande temor humano: o de ser apenas mais um animal. Igualarmos-nos aos animais é muito difícil, pois sempre nos sentimos o ápice da criação divina, feitos à imagem e semelhança de Deus. Darwin abalou essa crença, provendo uma explicação para a nossa origem nos mesmos termos da origem dos outros animais e dos outros seres vivos. Se somos apenas animais, então, nada mais é sagrado? Onde ficaria embasada a moral, como o não matarás? O medo do desmoronamento dos valores morais sagrados andou lado a lado com a resistência às idéias evolucionistas.



        Quando Copérnico nos tirou de centro do Universo a reação também foi de negação. Com o tempo, aprendemos que a esfera moral não é diretamente dedutível da esfera factual. Hoje convivemos muito bem sendo uma poeirinha cósmica na periferia na via Láctea e mantendo sentimentos morais. O mesmo deve acontecer com a Revolução Darwinista quando entendermos humildemente nossa igual posição na natureza. Entendermos que nós fazemos parte da natureza, somos animais, somos parentes de todo ser vivo: lactobacilo vivo, tripanossomo, champignon, brócolis e baleia. Não somos o “ápice” da vida, pois não existe animal superior ou inferior, já que o formato da evolução da vida na Terra não é uma escada e sim uma árvore em que cada ser vivo existente é o melhor de seu ramo.

        Agora que sabemos algumas causas dos preconceitos e mal-entendidos e sabemos como resolvê-los, faça um teste: busque notícias sobre ciência que envolvam genes, comportamento e psicologia evolucionista e veja se consegue identificar algum mal-entendido. Será mesmo que depois de ler esse texto você já está “vacinado” contra os mal-entendidos? Você agora sabe dizer o que está errado quando se fala em linguagem e infidelidade inatas? Você ainda acha que estudar diferenças entre homens e mulheres na perspectiva evolucionista é dar base moral para a dominação masculina? Considera mesmo que o fato de sermos animais nos torna escravos dos nossos genes?

        Esperamos que não, e que a partir de agora você seja um leitor mais atento e crítico, com esclarecimentos essenciais para entender a nova ciência Psicologia Evolucionista e assim se beneficiar do valor de suas explicações.



        Lembre-se que Psicologia Evolucionista também não é...


        • ...Psicologia Evolucionária, pois esta é uma tradução errônea do inglês Evolutionary Psychology.


        • ...Psicologia Evolutiva, pois essa terminologia designa a Psicologia do Desenvolvimento. A teoria em que a Psicologia Evolucionista se embasa é evolutiva, logo a disciplina é evolucionista. Segundo um artigo que padroniza as traduções dos termos em inglês da área de Etologia publicado em 2002 por Yamamoto e Ades, Evolutionary Psychology no Brasil é Psicologia Evolucionista.


        Referências

        BUSSAB, V. S. H.; RIBEIRO, F. J. L. Biologicamente cultural. In M. M. P. RODRIGUES; L. SOUZA; M. F. Q. FREITAS (Orgs.). Psicologia: Reflexões (in)pertinentes. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.


        LEWONTIN, R. A Tripla Hélice– Gene, Organismo e Ambiente. Companhia das Letras, 2002.


        MEYER, D.; EL-HANI, C. N. Evolução: o sentido da biologia. São Paulo: UNESP, 2005.


        OTTA, E.; RIBEIRO, F. J. L.; BUSSAB, V. S. R. (2003). Inato versus adquirido: Persistência de uma dicotomia. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis, 2003. 34, 283-311.

        PINKER, S. Tábula rasa. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

        RIDLEY, M. O que nos faz humanos. Rio de Janeiro: Record, 2004.



        Versão melhorada do texto "A Era dos Mal-Entendidos" publicado no Especial Psiquè Psicologia Evolucionista, ano II, nº 6.

        4 comentários:

        Adriano Axel disse...

        Caramba! Não creio que há tanto tempo navego por blogs por aí e só agora encontrei este... Não sou profissional ou acadêmico na área, mas assuntos ligados à evolução estão dentre meus favoritíssimos... E este blog é um achado precioso... Só pelas recomendações de leituras já vale a pena. Enfim... Já virei leitor de carteirinha aqui! Parabéns!

        Marco Antônio Corrêa Varella disse...

        Valeu Adriano Axel!! Fico muito grato pelo incentivo e consideração!! Seja sempre bem-vindo!! E fique a vontade para trocar idéia!! Se quiser receber um email a cada texto novo mande-me um email: macvarella@yahoo.com.br
        Abraços

        Mateus M. F. disse...

        Parabéns Marco & CIA! Este blog é uma ótima ferramenta para aqueles que se interessam no tema, sejam acadêmicos ou simplismente adoradores do tema. Muito atrativo mesmo. Estou começando na área e percebi muito material interessante por aqui! Valeu

        Emiliano B. Rossi disse...

        Isabella e Marco, parabéns pelo artigo que é bem bacana e realmente esclarecedor. Concordo com tudo o que foi dito e o que eu direi não está em contradição com nenhum dos pressupostos da Psicologia Evolucionista, mas... (toda a verdade vem depois do mas...rs) esse comentário, na realidade, vem introduzir uma questão importante e, ao que me parece, desprezada pela Psicologia Evolucionista: além das revoluções mencionadas de Copérnico e Darwin, existe uma terceira. É o terceiro golpe às pretensões antropocêntricas de sermos "centro do universo" e "seres com alma", que é a revolução de Sigmund Freud, segundo o qual a consciência não é soberana e "dona" de sua própria morada. Como vocês disseram, há algumas coisas incontroláveis, como os medos, por exemplo. Há, igualmente, um desejo de se prever as coisas, de se prever e controlar os comportamentos, que, infelizmente, não podem ser controlados. Nós não somos robôs e nossa consciência é apenas a ponta de um iceberg, para ficar com uma imagem já conhecida a respeito do Inconsciente freudiano. Saber o papel da descoberta da sexualidade infantil, das pulsões e desejos inconscientes é fundamental para realizarmos análises psicológicas, por um lado, e culturais, por outro. Fica a dica de deixar de lado explicaçòes fáceis e palatáveis e adentrar um universo mais complexo e sobredeterminado, o universo da psiquê humana.