domingo, 2 de março de 2008

Revolução Genômica e Lei de Biossegurança

Separados por menos de uma semana estão os dois acontecimentos nacionais em que as temáticas Ciências Biológicas, Biotecnologia, Biossegurança, Genômica e Células-Tronco estarão em foco e que, com certeza, vão mexer com a vida de muitos cientistas e não-cientistas.


Na quinta feira passada dia 28/02 foi o coquetel oficial de abertura da Exposição REVOLUÇÂO GENÔMICA . Essa Exposição tem um ancestral comum com a Exposição DARWIN que está no Rio, pois ambas vieram via Instituto Sangari do Museu Americano de História Natural. Nessa exposição são abordados principalmente biodiversidade brasileira, célula, DNA, células-tronco, clonagem e transgênicos. O discurso da exposição está acessível para várias idades e vários níveis de intimidade com o tema, além disso, existem educadores para esclarecer dúvidas e mediar o entendimento para todos.


A Revolução Genômica ficará no parque do Ibirapuera em São Paulo até o dia 13 de julho e espera alcançar 500 mil visitações. Depois ela rodará o Brasil por mais 10 cidades assim como está fazendo a exposição DARWIN. Todos os últimos domingos de cada mês serão de graça e em todos os finais de semana de hora em hora os visitantes poderão acompanhar no laboratório da exposição uma extração de DNA do morango. Escolas ou qualquer grupo de pelo menos 24 pessoas podem ligar para (11) 3468 7400 no horário comercial e agendar uma visita monitorada por toda a exposição passando até pela extração do DNA. Com isso espera-se que o brasileiro tome mais conhecimento sobre sua biodiversidade e sobre as possibilidades biotecnológicas da clonagem, dos transgênicos e principalmente das células-tronco.

E são as próprias células-tronco o tema da votação na próxima quarta feira dia 05/03. A Lei de Biossegurança, que autoriza a pesquisa científica com células tronco embrionárias, foi aprovada pelo Congresso há três anos. Mas foi questionada pelo então procurador-geral da República, Cláudio Fontelles, que entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. Nesta quarta estará nas mãos dos 11 ministros católicos do supremo decidir sobre o futuro dessas pesquisas no Brasil, em uma sala que ostenta um grande crucifixo na parede.

Basicamente, aqueles contra a lei têm por base questões religiosas, enquanto aqueles a favor têm por base as possibilidades médicas que poderão se tornar reais na posse do conhecimento adequado do funcionamento das células-tronco embrionárias – as únicas totipotentes. Muitos grupos se manifestaram a favor, e com razão já que impedir a pesquisa por motivos místicos seria um retrocesso quase medieval. Mas infelizmente podemos flagrar o dedinho divino movendo a ação de inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança, como deixa claro o site RNAm no texto Células-tronco: votação, bastidores e conspiração.



Essa votação e a ação religiosa me remetem às votações das leis eugênicas em países europeus e americanos durante o começo do século XX. As leis eugênicas eram coercivas, xenofóbicas e preconceituosas, pois estabeleciam que “a multiplicação dos débeis mentais era um perigo terrível para a raça” então todos aqueles minimamente enquadrados como mentalmente incapacitados eram esterilizados. Tais leis foram aprovadas primeiramente nos EUA e depois Suécia, Canadá, Noruega, Finlândia Estônia, Islândia e Alemanha também aprovaram. No entanto, em países onde a influência da igreja católica romana era forte não houve leis eugênicas.

As narrativas modernas da história da eugenia apresentam-na como um exemplo dos perigos de se deixar a ciência, especialmente a genética sem controle. Mas trata-se na realidade muito mais de um exemplo do perigo de se deixar o governo sem controle. Pois, apesar de todo cientista moderno reconhecer a eugenia como uma pseudociência, muito do que está errado com a eugenia não é ciência, mas coerção do Estado.

Quanto olhamos para essa votação da Lei de Biossegurança vemos novamente o catolicismo via CNBB (Congregação Nacional dos Bispos do Brasil) tentando impedir que os cientistas desalmados cometam atrocidades. Entretanto, agora a história é bem diferente, serão feitas pesquisas em culturas de células embrionárias para entendermos quais os processos ocorrem na diferenciação dessas células em todas as células especializadas do nosso corpo.



E ainda a professora de bioética da UnB, Débora Diniz, lembra que seriam usados apenas embriões inviáveis e com autorização dos doadores. E "embriões inviáveis são aqueles que mesmo que transferidos para o útero de uma mulher eles não tem capacidade de desenvolvimento pra gerar uma futura criança. São embriões que o único destino é o congelamento permanente ou o descarte," explica ela.
Fica aí a indicação para nos informarmos bem e ficarmos atentos a esses dois eventos importantíssimos.

7 comentários:

Zulma disse...

Olá Marco Antônio,
Acompanho a Imunologia há 35 anos, e às vezes paro para reflexão:
será que os cientistas esqueceram (ou não sabem) que qualquer célula nucleada, seja ela de embrião, de feto ou de indivíduo adulto, expressa aloantígenos HLA em sua superfície, e que, quando não é própria do paciente/deficiente físico, será rejeitada (eliminada) pelo seu sistema imunológico?
A Imunologia é que dita a regra da terapia com células, tecidos e órgãos!
Diante disso, já que as células-tronco embrionárias humanas NÃO têm aplicação terapêutica devido à dominante reação imunológica de rejeição, penso que as cientistas requerentes do uso de embriões humanos façam suas pesquisas em embrião de animais.
Evitemos mais conflitos e falsas expectativas.

Zulma disse...

Estão chegando as Células Humanas iPS:
http://www.isscr.org/public/briefings/breakthrough.html

As células humanas iPS são similares às células-tronco embrionárias, porém são derivadas de células (ex: da pele) do próprio indivíduo (paciente/deficiente físico) e portanto não terão que enfrentar a barreira alogênica ao serem utilizadas como tratamento/terapia.

Zulma disse...

As células-tronco “reprogramadas” iPS não precisam mais ser obtidas com a introdução de genes ou com a utilização de retrovírus como vetor. Segundo a Profa. Dra. Alice Teixeira Ferreira, a PrimeGen já está apresentando um método mais rápido e 1000 vezes mais eficiente: as proteínas necessárias para induzir a pluripotência nas células adultas são levadas por partículas de carbono que são rapidamente incorporadas pelas células adultas (usaram células da pele, de rim e da retina). Afirma também que não tem de se preocupar com a manipulação genética que na verdade não ocorre, pois o que se faz é ativar genes que estavam silenciados. Por outro lado, prossegue, a reprogramação foi estudada primeiramente em camundongos e podemos continuar usando estes animais para estudar o comportamento de células embrionárias, pois afinal existe uma homologia de 95% entre o genoma desta espécie animal e o humano.

Zulma disse...

Caro Marco Antônio,
Achei interessante divulgar a notícia abaixo, pois reforça o incentivo à pesquisa com células-tronco adultas, que incluem as células-tronco "reprogramadas" iPS:
GRANADA, quarta-feira, 23 de abril de 2008 (ZENIT.org)- «As células-tronco embrionárias fracassaram; a esperança para os enfermos está nas células adultas», é a tese que foi exposta nesta quarta-feira, em Granada (Espanha), pela doutora Natalia López Moratalla, catedrática de Biologia Molecular e Presidente da Associação Espanhola de Bioética e Ética Médica.
Durante a conferência, que foi organizada pela Associação Nacional para a Defesa do Direito à Objeção de Consciência (ANDOC) na Academia de Medicina de Granada, a pesquisadora afirmou que hoje a pesquisa «derivou decididamente para o emprego das células-tronco 'adultas', que são extraídas do próprio organismo e que já estão dando resultados na cura de doentes'».
Por Inmaculada Álvarez

Rafael Bento da Silva Soares disse...

Cara Zulma,
Peço autorização para o Marco para retificar algumas confusões relativas aos comentários da postagem:

1- Resposta imune: claro que é importante, mas não é a senhora de tudo. Afinal, não temos transplantes de orgãos? Mesmo caso. Veja, o objetivo atual é entender a diferenciação celular, não implantar em doentes. Isto “pode” levar a uma terapia no futuro, que não necessariamente usará células embrionárias.

2- O milagre da PrimeGen: Segue aqui um texto que mostra como os clamores desta empresa, feitos desde 2006, ainda não rendeu nenhum trabalho em revistas científicas, mas apenas apresentações em simpósios como Pontifical Academy for Life e World Federation of Catholic Medical Associations. Leia mais aqui: http://venturebeat.com/2008/03/02/science-by-press-release-primegens-murky-stem-cell-breakthrough/

3- Uso de animais: todos os animais são muito diferentes entre si. Por exemplo, transgênicos de camundongos (Mus musculus) são fáceis de se fazer, mas de ratos (Ratus novergicus) são dificílimos. Poucos conseguiram. E a semelhança entre estes animais(ambos roedores) é bem maior que a semelhança deles e nós, primatas. Logo, o que vale pra um, pode ser uma dica, mas não vale inteiramente para o outro.

4- Sobre Natália López Moratalla: 1- esta notícia só foi vinculada em veículos religiosos, 2- sua produção não é extensa como dizem. Seu nome aparece apenas em 4 trabalhos de trabalhos cientificos internacionais, sendo apenas uma relativamente expressiva

5- Células adultas: Sinceramente, a ciência não faz esse pedido de usar células embrionárias por masoquismo ou para ser do contra. Realmente as células adultas, e mesmo as induzidas não substituem ainda os estudos necessários para se entender a diferenciação celular. Os cientistas não estão divididos ao meio. Os favoráveis ao uso são 90%. Claro que os contrários aparecem muito, devido a necessidade da mídia de apresentar os dois lados, mas eles não são equivalentes.

Indico aqui meu próprio blog, onde há alguns textos sobre células tronco (http://rnam.blogspot.com/search/label/c%C3%A9lula-tronco) e biologia em geral (http://rnam.blogspot.com). Fique a vontade.

Zulma disse...

Olá Rafael,
Sinto desapontá-lo! Percebo que é geral o desconhecimento das moléculas do MHC como aloantígenos. Infelizmente, a reação imunológica de rejeição (resposta alogênica) é soberana: potente, rápida e dominante!
A Imunologia, ciência que dita regra para terapia com células, tecidos e órgãos, ensina que células nucleadas (incluindo óvulo e espermatozóide) expressam moléculas protéicas codificadas pelo MHC - Complexo Principal de Histocompatibilidade, denominado HLA em humanos, as quais registram biologicamente cada indivíduo de nossa espécie: seu papel fisiológico é o de apresentar peptídeo para linfócitos T, mas elas também atuam como ‘elementos de distinção’ entre o próprio e o não-próprio em sistemas de transplantes. Tais moléculas são o alvo da reação de REJEIÇÃO de aloenxerto quando o doador e o receptor não são HLA-idênticos: comumente é contra-indicado transplante de medula óssea (transplante de células-tronco adultas) na vigência de incompatibilidade HLA entre o paciente e seu provável doador (devido não só à rejeição das células pelo paciente, mas também à reação de enxerto x hospedeiro que pode ser fatal); para outros tipos de transplante, como os de órgãos sólidos, o requisito de compatibilidade HLA entre doador e receptor é bem mais flexível devido à imunossupressão com drogas químicas e/ou agentes biológicos.
Dessa maneira, eventual terapia com células-tronco embrionárias humanas não poderia ser idealizada somente em função do excelente resultado obtido em camundongos, quando se constatou, à época, que “a célula-tronco embrionária é o único tipo celular capaz de se diferenciar em neurônio”. Diferentemente do observado na espécie humana, os estudos com camundongos empregam animais geneticamente idênticos (clones), ou seja, MHC-idênticos, o que permite a livre transferência de células, tecidos e órgãos entre os animais na ausência de rejeição imunológica, incluindo a transferência de células-tronco embrionárias a animais adultos.
Sabe-se que para tratamento com células-tronco embrionárias humanas é necessário seguir as mesmas leis de transplantação adotadas para transplante de medula óssea (células-tronco adultas), ou seja, compartilhamento do HLA pelo doador das células (no caso, o embrião) e receptor das mesmas (o paciente).
Portanto, a celeuma é científica! Quantos embriões seriam necessários para uma única terapia? Dentre os embriões congelados, quantos seriam HLA-idênticos a um determinado paciente para que a terapia fosse eficaz? Tal probabilidade, entre dois indivíduos não-relacionados (não-aparentados), resulta do produto das combinações dos alelos de cada locus HLA clássico. Segundo dados de 1997 (24 alelos HLA-A, 9 alelos HLA-C, 49 alelos HLA-B, 17 alelos HLA-DR, 7 alelos HLA-DQ e 6 alelos HLA-DP), a probabilidade de encontrar dois indivíduos HLA-idênticos seria de 1:1.487.779.650.000, ou seja, de 1 entre 1 milhão e meio (cd_completo_inmunologia_2004_alonso.zip - ZIP archive, unpacked size 85.706.376 bytes). Entretanto, os dados mais recentes revelam um número muito maior de alelos para cada locus HLA clássico, dificultando ainda mais o encontro de dois indivíduos HLA-idênticos não-aparentados (Bochtler W e colabs., Bone Marrow Transplant. 2007 Jun;39(12):737-41). Isto sem falar no polimorfismo em outros genes não-HLA influenciando transplante de células-tronco (Middleton PG, Methods Mol Med. 2007;134:97-114).
A obrigatoriedade em seguir a regra imunológica de transplantação para terapia com células-tronco embrionárias é enfatizada pelo Dr. Shynia Yamanada em seu recente artigo de revisão: “Embryonic stem cells are promising donor cell sources for cell transplantation therapy, which may in the future be used to treat various diseases and injuries. However, as is the case for organ transplantation, immune rejection after transplantation is a potential problem with this type of therapy” (Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci, 363(1500):2079-87, Jun 2008).
Acompanho a Imunologia há 35 anos, iniciei no campo dos transplantes atuando na seleção imunológica de doadores para transplante renal na UTR – Unidade de Transplante Renal do HCFMUSP, e continuo lecionando a respeito. Não houve alteração na regra ditada pela Imunologia para a terapia com células, tecidos e órgãos: a reação de rejeição domina sobre qualquer outro tipo de resposta imunológica. Conclusão: que potencial terapêutico ‘maravilhoso’ têm as células-tronco embrionárias! Daí a importância em se empenhar na terapia com células-tronco autólogas (do próprio paciente).
Ah! A declaração da Dra. Natalia López-Moratalla, em 22 de abril de 2008, foi noticiada na ANDOC (Asociación Nacional para la Defensa del Derecho a la Objeción de Conciencia) que, como pode ver, não tem conotação religiosa, infelizmente (http://www.andoc.es/default.asp).
Quanto à PrimeGen, peço que entre em contato com a Profa. Dra. Alice Teixeira Ferreira que está infinitamente mais preparada para as devidas explicações, pois trabalha com células-tronco desde 1994 (alice@biofis.epm.br).
Como não tenho blog próprio para indicar, recomendo a leitura de um bom livro atualizado de Imunologia, tal como o livro “Imunologia Celular e Molecular” (Abul K. Abbas, Andrew H. Lichtman e Shiv Pillai – 6a. edição, 2007 - Editora Elsevier).

Marco Antônio Corrêa Varella disse...

Olá Zulma agradeço imensamente a participação ativa no MARCO EVOLUTIVO.
Eu, você e o Rafael somos a favor da Ciência. E nós sabemos que a primeira coisa que os cientistas fazem ao pedir financiamento e respaldo jurídico é vislumbrar sobre "possíveis" aplicações futuras pra sociedade do objeto de estudo em questão.
Mas Ciência não é apenas ciência aplicada, mesmo que no futuro todos descubram que não dará em nada nós ainda assim teríamos um valioso conhecimento sobre os processos naturais de diferenciação celular.
Além do mais, a Lei de Biossegurança foi aprovada e agora é permitido por lei pesquisar células-tronco embrionárias no Brasil.
Estou te vendo tão empolgada em debater, ensinar e divulgar Ciência que seria uma ótima idéia e de uma riquíssima contribuição se você criasse um Blog Científico sobre Imunologia. É fácil prático e divulga até quando estamos dormindo. Pense nisso!
E obrigado pela contribuição!
Abraços