quarta-feira, 5 de março de 2008

Descobrindo a Árvore da Vida - Palestras no Rio


Todos sabemos que a Exposição Darwin: Descubra o Homen e a Teoria que Mudaram o Mundo está na Rio de Janeiro, visitando sua segunda cidade brasileira e Darwin visitando o Rio pela segunda vez. A Exposição Darwin do MASP teve 175 mil visitantes e 70 mil estudantes da rede pública e privada participaram do programa educativo. Seu Relatório de Atividades já está disponível no site da exposição.



O que nem muitos sabem é que o Brasil é o único país em que, paralelamente às Exposições DARWIN, ocorrem dois ciclos de palestras: o Infinitas Formas, que trata da temática da biodiversidade, e o Descobrindo a Árvore da Vida, que trata da vida e obra de Charles Darwin, sua influência nas diversas áreas do conhecimento e na visão contemporânea de mundo.

As palestras do ciclo Descobrindo a Árvore da Vida no MASP foram espetaculares, pois contou com pesquisadores brasileiros renomados. Mas infelizmente não foram capazes de lotar o auditório do MASP. Talvez por falta de divulgação, já que o conteúdo de ambos os ciclos fica escondido no ramo eventos culturais da árvore do site da Exposição.


Então, para que muitos cariocas não deixem passar essas oportunidades únicas e de graça, aí vão as palestras desse ciclo na exposição do Rio de Janeiro. Que ocorrem na livraria Travessa no Shoping Leblon, nas quintas-feiras às 20h.



Amanhã dia 06/03 será a palestra "Padrões na Natureza: uma visão evolutiva" com o professor Mário de Pinna - pesquisador Associado do American Museum of Natural History e da Smithsonian Institution. Esta já está esgotada garanta a sua reserva. Quinta-feira às 20h.




Dia 13/03 será a palestra "Três viajantes e a Teoria da Evolução" com o Armando Bittencuort Vice-Almirante Engenheiro Naval da Reserva. Diretor do Patrimônio histórico e Cultural da Marinha. Quinta-feira às 15h.









Dia 19/03 será a palestra "Darwin e a Seleção Sexual" com o biólogo, mestre e doutor em Letras Ricardo Waizbort que trabalha na Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz. Esta será numa quarta-feira às 20h e também já está esgotada é melhor correr nas reservas.






Dia 27/03 será a palestra "Aquecimento Global e a Consciência no Século XXI" com o professor Sérgio Vianna do Departemento de Economia da PUC-RIO. Quinta-feira às 20h.


Dia 03/04 será a palestra "Evolução Diante dos Nossos Olhos" com Paulo Buss especialista em corrida armamentista entre nosso sistema imunológico e os micro-organismos.





Dia 10/04 será a palestra "A Biologia Ajuda
na Compreensão do Comportamento Humano?" com o professor Titutlar César Ades, Psicólogo e Etólogo da Psicologia Experimental da USP e Diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP.



Todas as palestras são da alto nível e o melhor é que são abertas ao público interessado, nós!

domingo, 2 de março de 2008

Revolução Genômica e Lei de Biossegurança

Separados por menos de uma semana estão os dois acontecimentos nacionais em que as temáticas Ciências Biológicas, Biotecnologia, Biossegurança, Genômica e Células-Tronco estarão em foco e que, com certeza, vão mexer com a vida de muitos cientistas e não-cientistas.


Na quinta feira passada dia 28/02 foi o coquetel oficial de abertura da Exposição REVOLUÇÂO GENÔMICA . Essa Exposição tem um ancestral comum com a Exposição DARWIN que está no Rio, pois ambas vieram via Instituto Sangari do Museu Americano de História Natural. Nessa exposição são abordados principalmente biodiversidade brasileira, célula, DNA, células-tronco, clonagem e transgênicos. O discurso da exposição está acessível para várias idades e vários níveis de intimidade com o tema, além disso, existem educadores para esclarecer dúvidas e mediar o entendimento para todos.


A Revolução Genômica ficará no parque do Ibirapuera em São Paulo até o dia 13 de julho e espera alcançar 500 mil visitações. Depois ela rodará o Brasil por mais 10 cidades assim como está fazendo a exposição DARWIN. Todos os últimos domingos de cada mês serão de graça e em todos os finais de semana de hora em hora os visitantes poderão acompanhar no laboratório da exposição uma extração de DNA do morango. Escolas ou qualquer grupo de pelo menos 24 pessoas podem ligar para (11) 3468 7400 no horário comercial e agendar uma visita monitorada por toda a exposição passando até pela extração do DNA. Com isso espera-se que o brasileiro tome mais conhecimento sobre sua biodiversidade e sobre as possibilidades biotecnológicas da clonagem, dos transgênicos e principalmente das células-tronco.

E são as próprias células-tronco o tema da votação na próxima quarta feira dia 05/03. A Lei de Biossegurança, que autoriza a pesquisa científica com células tronco embrionárias, foi aprovada pelo Congresso há três anos. Mas foi questionada pelo então procurador-geral da República, Cláudio Fontelles, que entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. Nesta quarta estará nas mãos dos 11 ministros católicos do supremo decidir sobre o futuro dessas pesquisas no Brasil, em uma sala que ostenta um grande crucifixo na parede.

Basicamente, aqueles contra a lei têm por base questões religiosas, enquanto aqueles a favor têm por base as possibilidades médicas que poderão se tornar reais na posse do conhecimento adequado do funcionamento das células-tronco embrionárias – as únicas totipotentes. Muitos grupos se manifestaram a favor, e com razão já que impedir a pesquisa por motivos místicos seria um retrocesso quase medieval. Mas infelizmente podemos flagrar o dedinho divino movendo a ação de inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança, como deixa claro o site RNAm no texto Células-tronco: votação, bastidores e conspiração.



Essa votação e a ação religiosa me remetem às votações das leis eugênicas em países europeus e americanos durante o começo do século XX. As leis eugênicas eram coercivas, xenofóbicas e preconceituosas, pois estabeleciam que “a multiplicação dos débeis mentais era um perigo terrível para a raça” então todos aqueles minimamente enquadrados como mentalmente incapacitados eram esterilizados. Tais leis foram aprovadas primeiramente nos EUA e depois Suécia, Canadá, Noruega, Finlândia Estônia, Islândia e Alemanha também aprovaram. No entanto, em países onde a influência da igreja católica romana era forte não houve leis eugênicas.

As narrativas modernas da história da eugenia apresentam-na como um exemplo dos perigos de se deixar a ciência, especialmente a genética sem controle. Mas trata-se na realidade muito mais de um exemplo do perigo de se deixar o governo sem controle. Pois, apesar de todo cientista moderno reconhecer a eugenia como uma pseudociência, muito do que está errado com a eugenia não é ciência, mas coerção do Estado.

Quanto olhamos para essa votação da Lei de Biossegurança vemos novamente o catolicismo via CNBB (Congregação Nacional dos Bispos do Brasil) tentando impedir que os cientistas desalmados cometam atrocidades. Entretanto, agora a história é bem diferente, serão feitas pesquisas em culturas de células embrionárias para entendermos quais os processos ocorrem na diferenciação dessas células em todas as células especializadas do nosso corpo.



E ainda a professora de bioética da UnB, Débora Diniz, lembra que seriam usados apenas embriões inviáveis e com autorização dos doadores. E "embriões inviáveis são aqueles que mesmo que transferidos para o útero de uma mulher eles não tem capacidade de desenvolvimento pra gerar uma futura criança. São embriões que o único destino é o congelamento permanente ou o descarte," explica ela.
Fica aí a indicação para nos informarmos bem e ficarmos atentos a esses dois eventos importantíssimos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

2009 - Sua cabeça estará em Darwin ou nas estrelas?



Apesar do recente eclípce total da lua ter deixado muitos com a cabeça nas estrelas (inclusive eu), o MARCO EVOLUTIVO está engajado a fazer com que as pessoas fiquem com a cabeça em Darwin. Fico feliz que um texto deste site intitulado 2009 o "ANO DA BIOLOGIA" atraiu a atenção do Administrador da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia. Ele veio nos dar uma informação e trouxe duas boas notícias e outra desanimadora.



As boas são que a Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB) encaminhou a proposta do "Ano Internacional da Biologia" a dois organismos internacionais, a International Union of Biological Sciences e a International Union of History and Philosophy of Science, que já aprovaram a iniciativa. Agora o movimento ganha força internacional. Força que só cresce se incluírmos os eventos e festividades internacionais programadas para 2009, como o DARWIN 200 e o Darwin 2009, eventos dos quais ainda vamos falar muito.




No entanto, a má notícia é aquela que Darwin não gostaria muito de ler: quando a proposta foi encaminhada para a UNESCO, a resposta recebida foi que 2009 já havia sido declarado o "Ano Internacional da Astronomia". Ou seja, toda a velocidade de guepardo dos biólogos para encaminhar a proposta não foi pário para a velocidade da luz dos astrônomos. Segundo a UNESCO, o ano de 2009 celebrará a Astronomia e suas contribuições para a sociedade e a cultura globais. Destacará os méritos da ciência e seus métodos. As Nações Unidas elegeram 2009 o Ano Internacional da Astronomia (IYA 2009), e designou a UNESCO a agência líder nas comemorações.





Completamente louvável, pois é sempre bem vinda comemorações que destacam os méritos e métodos da ciência. Ainda mais da Astronomia uma das mães das ciências. Assim, muitos finalmente entenderão de uma vez por todas que Astronomia não é astrologia! Porém, a própria UNESCO não justificou a escolha. Ao passo que para o "Ano Internacional da Biologia" temos justificativas mais do que solenes, temos os 200 anos de Darwin, os 150 anos do "Origens das Espécies", os 200 anos do "Filosofia Zoológica" de Lamarck e os 180 anos de falecimento de Lamarck.



E pensar que tem físico aplicando a Seleção Natural ao Universo inteiro. Em que os buracos negros, sugando matéria, seriam como gametas cósmicos se preparando para um Big-Bang próximo. Como o nosso universo surgiu por um Big-Bang, o físico Lee Smolin, propôs que os Universos com mais chances de existir na competição com outros Universos no imensurável Multiuniverso seriam aqueles com mais buracos negros. Pois deixariam mais descendentes com essas caracteristicas: maior número de buracos negros. Espero que alguns astrônomos e físicos, seres com uma excelente noção para medidas exorbitantemente gigantescas, reconheçam a imensidão abrangida pelas idéias de Darwin.



Darwin, mesmo abatido, vai ter todas as comemorações que lhe cabem. Tanto a Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia (ABFHiB) quanto outras instituições vão organizar eventos relativos a Darwin e ao Origens das Espécies. É o caso da São Paulo Research Conference que já está com data marcada. Em agosto, nos dias 20, 21 e 22 de 2009 realizará o evento: Darwin e "A origem das Espécies", 150 anos depois. Mas ao contrário da Teoria de Evolução, que centraliza tudo dando sentido na Biologia, nas comemorações de 2009 não existá uma centralização de tudo, "como deveria haver" - ressalta o Administrador da ABFHiB.



Então, o "Ano Internacional da Biologia" conta, por enquanto, com o apoio da International Union of Biological Sciences e da International Union of History and Philosophy of Science, mas não da UNESCO nem da Nações Unidas. Que definitivamente não tem a cabeça em Darwin mas sim nas estrelas.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Dica de Livro - A Tripla Hélice


Nascido em 1929, geneticista renomado de Harvard e aluno do memorável T. Dobzhansky, Richard Lewontin põe em xeque visões simplistas sobre genética e evolução, ataca o determinismo genético e ressalta a complexidade dos processos biológicos advindos das inter-relações entre gene, organismo e ambiente. A Tripla Hélice é um livro curto e direto, composto de quatro capítulos, fruto de conferências que deu em Milão e acrescido do último capítulo. Escrito em linguagem simples e envolvente e oferecendo raciocínios complexos seu livro permite uma leitura interessante e proveitosa para todos da área biológica atentos aos modos como sua ciência vem sendo feita, patrocinada, ensinada e divulgada.



No primeiro capítulo, Gene e Organismo, Lewontin faz uma profunda análise das inter-relações entre gene e organismo na formação do fenótipo durante o desenvolvimento e condena a separação entre ambos. Ele ressalta os perigos das metáforas na ciência, esclarece mal-entendidos mais comuns sobre DNA, gene e genoma e relativiza a importância do seqüenciamento do genoma humano dizendo que os genes são apenas uma parte, não isolada do ambiente, do desenvolvimento do organismo.



Para Lewontin, a linguagem metafórica é indispensável à ciência, porém é muito perigosa já que é comum confundirmos a metáfora com o objeto de pesquisa. Por isso, endossa a frase de que “o preço da metáfora é a eterna vigilância”-. O foco de sua vigilância desse capítulo é desconstruir a noção pretensiosa de que é possível prever o organismo através da seqüência do DNA, de que o genoma humano seqüenciado é saber “o que é” ser humano, de que o DNA é “auto-replicante” num sentido de auto-suficiência, de que o DNA sozinho “produz” novas proteínas e que em isolado a seqüência do DNA é o “santo graal” da Biologia.



Na busca das raízes dessas concepções errôneas, Lewontin chega à filosofia da ciência, à etimologia e à metodologia em genética humana. Em Descartes ele identifica nossa tendência em dar mais valor epistemológico ao objeto do que em suas inter-relações internas e externas. No debate pré-moderno sobre a geração orgânica, em que pré-formacionistas e epigenistas buscavam explicar o desenvolvimento, ele identifica resquícios de pré-formacionismo na supervalorização do gene como a “causa” do organismo. Até a origem da palavra desenvolvimento tem marcas pré-formacionistas, pois sua raiz é a mesma para o processo de revelação fotográfica. Nesse sentido, o filme fotográfico já contém todos os elementos da foto e a seqüência genética já contém todas as “informações” do organismo. Assim como no processo de revelação, os banhos químicos dão as condições necessárias para o aparecimento da foto, o ambiente é visto apenas como dando as condições necessárias, normais, para o aparecimento do organismo durante o processo de desenvolvimento ontogenético.



As metodologias científicas disponíveis também influenciam as concepções errôneas envolvendo genes e desenvolvimento. A genética humana usa muito as mutações drásticas como método de investigação da importância de um gene no desenvolvimento. Mas apenas a minoria das mutações é do tipo drástico e o efeito mutado é facilmente tido como “causado” apenas pelo gene mutado. A Biologia Experimental é limitada em manipular uma causa por meio de grandes mutações, o que faz com que os biólogos experimentais confundam as limitações metodológicas dos experimentos com as explicações corretas dos fenômenos. E isso leva ao pensamento de que toda a diferença individual está nos genes.



Na verdade o desenvolvimento ontogenético é uma interação singular entre genes, a seqüência temporal dos ambientes externos e eventos aleatórios, que é o ruído do desenvolvimento. Essa interação singular entre gene e ambiente é tal que o ordenamento dos fenótipos não apresenta nenhuma correspondência com nenhum ordenamento a priori dos genótipos e dos ambientes em separado. E essa não correspondência ainda é complexificada pelo ruído do desenvolvimento.



No segundo capítulo, Organismo e Ambiente, Lewontin analisa o pensamento adaptacionista, sua origens históricas e ressalta as inter-relações entre organismo e ambiente condenando a separação entre ambos e descontruindo o papel passivo do organismo frente ao ambiente. Darwin, ao inaugurar o pensamento evolucionista por meio a seleção natural, fez uma separação entre processos internos e externos. A variação individual é fruto de processos internos independentes e a seleção é fruto de processos externos independentes. Essa distinção foi importante, pois desmistificou o holismo obscurantista entre orgânico e inorgânico existente na época, mas não nos ajuda mais agora.




Os ecos dessa concepção inicial são encontrados em metáforas para a adaptação como a que o organismo propõe e o ambiente dispõe, que o organismo faz conjecturas e o ambiente as refuta, ou ainda a que o ambiente lança problemas e os organismos lançam soluções aleatórias. A idéia errônea subjacente a essas concepções é que o ambiente de um organismo é casualmente independente dele e que as alterações ambientais são autônomas e desconectadas com as alterações na própria espécie. Para Lewontin o processo evolutivo real é mais captado pelo processo de construção, o que torna mais ativa a participação do organismo nas suas pressões seletivas.



Segundo Lewontin, não existe organismo sem ambiente assim como não existe ambiente sem organismo. Há uma confusão clássica entre o fato da existência do mundo físico externo ao organismo que continuaria a existir na sua ausência e a afirmação de que os ambientes existem sem e independente dos organismos. Os ambientes não são simples condições físicas, são os espaços funcionais definidos pelas atividades dos próprios organismos. Os organismos determinam os aspectos do mundo exterior que são relevantes para eles e constroem ativamente um mundo a sua volta, promovendo um processo constante de alteração ambiental na medida em que as condições relevantes se tornam parte de seu ambiente.


No terceiro capítulo, Partes e Todos, Causas e Efeitos, Lewontin aponta as dificuldades da aplicação das explicações analítico-mecanicistas aos seres vivos, ressalta as singularidades e complexidades dos processos biológicos e integra as inter-relações de gene e ambiente com as de organismo e ambiente. O êxito oportunista do modelo analítico de Descartes levou a uma concepção simplista das relações entre partes e todos e entre causas e efeitos. E quando é aplicado ao estudo dos organismos o modelo “máquina” apresenta dificuldades advindas da incompatibilidade entre sua simplificação e as características singulares dos seres vivos.


Os seres vivos possuem tamanho intermediário entre o micro-cosmo e o macro- cosmo, são internamente heterogêneos de maneiras relevantes para suas funções vitais e entram em relações causais complexas com outros sistemas heterogêneos. Dadas essas características a separação entre causa e efeito se torna problemática, pois o organismo é um nexo de um grande número de forças internas e externas fracamente determinantes, sendo nenhuma dominante, e não há um único e óbvio modo de dividir um organismo em “órgãos” apropriados para a análise causal de funções diferentes. Além disso, os processos orgânicos apresentam uma contingência histórica que impede explicações e generalizações universalistas.



As relações recíprocas entre Gene, Organismo e Ambiente, os elementos da Tripla Hélice, são ressaltadas. Os organismos não estão codificados nos seus genes porque o ambiente em que o desenvolvimento ocorre tem que ser considerado. E o ambiente está codificado nos genes do organismo uma vez que as atividades do organismo é que constrói o ambiente. Então gene e ambiente causam o organismo via desenvolvimento, genes e organismos causam o ambiente via ecologia e organismo e ambiente co-evoluem causando as pressões seletivas sobre os genes.



No capitulo final, Direções no Estudo da Biologia, Lewontin menospreza as alternativas ao reducionismo vindas da física, ressalta as características únicas dos sistemas vivos e fecha com um otimismo para futuras pesquisas e descobertas na Biologia. Frequentemente cientistas de diversas áreas não biológicas reconhecem que o modelo “máquina” fracassou para explicar a vida. O problema é que eles assumem que uma solução melhor deve vir de fora como da física, sem perceberem que o modelo falha justamente por não compreender os seres vivos em seus próprios termos. As tentativas nesse sentido mais famosas são a da aplicação da teoria da catástrofe, da teoria do caos, e da complexidade aos organismos vivos.



Os sistemas biológicos são sistemas abertos internamente heterogêneos e históricos. De sua característica aberta advém a flexibilidade universal dos limites entre o interior e o exterior. E de sua heterogeneidade interna advém que a forma é requisito para entender as funções e daí o perigo de fazer extrapolações de exemplos convenientes para toda a Biologia, como no caso das mutações drásticas como modelo para compreender “o papel” dos genes.





Nos capítulos anteriores Lewontin vigilantemente ressaltou e ilustrou aspectos que para ele são bem conhecidos, em algum nível da consciência, por todos os biólogos. A Biologia não precisa de novas leis e novos princípios explicativos, mas necessita de uma compreensão menos simplista e mais integrativa de seus processos segundo suas próprias características singulares. Apresentar e desconstruir os viéses e as simplificações das concepções sobre gene, organismo e ambiente e incorporar os novos conceitos às metodologias de pesquisa foram as maneira encontradas por Lewontin para que novos conhecimentos sejam incorporados à estrutura das explicações biológicas.
“A Tripla Hélice – Gene, Organismo e Ambiente” Richard Lewontin. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

1,99 centenas para Darwin no Dia de Darwin




O valor de 1,99 está relacionado a ítens de baixa qualidade ou a propaganda que ilude o consumidor. Mas nesta terça feira dia 12 de Fevereiro o valor não estará associado nem baixa qualidade muito menos a propaganda enganosa. Muito pelo contrário, ele receberá sua atribuição mais honrosa: a de 1,99 centenas de anos para Charles Darwin.

Darwin nasceu no dia 12 de Fevereiro de 1809 e este ano ele faz 199 anos. Não é uma data para se passar em branco. No mundo todo o dia 12/02 é celebrado como o DARWIN DAY a Global Celebration of Science and Humanity.

A Darwin Day Celebration se embasa na premissa de que a ciência, assim como a música, é uma linguagem internacional que fala a todas as pessoas de um modo similar. E que Charles Darwin é um símbolo tão importante do pensamento moderno a ponto de merecer nosso foco na elaboração de uma Celebração Global da Ciência e da Humanidade que promova uma ligação comum entre todas as pessoas da Terra.

Desde 1995, quando foi realizado o primeiro evento “oficial” na Stanford University (EUA) por iniciativa de Robert Stephens, instituições ou grupos de cientistas espalhados pelo mundo celebram o Dia de Darwin, um tributo à obra científica do naturalista inglês e, mais amplamente, uma forma de promoção da educação em ciência. Antes disso outros eventos já celebravam a data, como o “Darwin Festival”,da Salem State College, de Massachusetts, que acontece desde os anos 80. E em 2008 também ocorrerá outro Darwin Festival em Shrewsbury.

Hoje a organização Darwin Day Celebration, conta com milhares de associados e incentiva, organiza e auxilia eventos públicos de divulgação da ciência em cerca de 13 países. As comemorações são realizadas sempre por volta do dia 12 de fevereiro. Os vários eventos programados para 2008 no mundo já estão disponíveis no DarwinDay.org.

Além disso, Darwin que quase foi expulso do HMS Beagle pelo comandante Fritz Roy quando criticou a escravidão no Brasil nasceu no mesmo dia e ano de Abraham Lincoln, o homem que emancipou os escravos norte-americanos. Juntos Darwin e Lincoln deixaram legados respeitáveis dignos de uma Celebração Global da Ciência e da Humanidade.

No Brasil a primeira celebração do Dia de Darwin foi realizada em 2005 no Rio de Janeiro. Uma das cidades visitadas por Charles Darwin em vida durante a viagem do HMS Beagle e agora em morte com a Exposição DARWIN: Descubra o Homem e a Teoria que Revolucionou o Mundo, de 23 de janeiro a 13 de abril no Museu Histórico Nacional.

A escolha do Rio para a primeira celebração nacional do Dia de Darwin foi bastante apropriada, por conta da polêmica gerada pela adoção, nas escolas estaduais, do ensino do criacionismo. Aliás, a celebração do Dia de Darwin não é só uma afirmação da educação de ciência e da teoria evolutiva, mas também uma manifestação contra o movimento criacionista.


Nesse 2008, no Rio de Janeiro, a Livraria da Travessa do 2º piso do shopping Leblon abrigará, pelo quarto ano consecutivo, a celebração do Dia de Darwin. No dia 14, quinta feira às 20h ocorrerá um ciclo de palestras: Darwin e a viagem do Beagle com Prof. Nelio Marco Vicenzo Bizzo.

As palestras deste ciclo pretendem situar a vida e a obra de Charles Darwin e a sua influência não só sobre a biologia como também em outras áreas do conhecimento e na visão de mundo contemporânea. O Dr. Nelio Marco Vicenzo Bizzo, professor titular da USP, apresentará sua visão original sobre a importância da viagem do Beagle para Charles Darwin onde os Andes aparecem como
protagonistas dessa história no local comumente atribuído às ilhas Galápagos.


Em São Paulo, o Dia de Darwin é celebrado desde 2006 no Museu de Zoologia da USP. Os eventos contaram sempre com várias palestras relevantes sobre diferentes aspectos do darwinismo, ministradas por ilustres professores. Os temas e palestrantes bem como as filmagens das palestras de 2007 estão disponíveis no site do MZUSP.

Essa iniciativa das gravações on line é simplesmente incrível. Aliás, toda a iniciativa brasileira envolvendo o Dia de Darwin desde a pioneira do Rio tem como principais idealizadores e organizadores os pós-graduados pelo Museu de Zoo: Maria Isabel Landim e Cristiano Moreira. Os mesmos que participaram como coordenadores científicos da Exposição Darwin no MASP. Eles estão de parabéns por todas as iniciativas e
espero que a dedicação e empolgação deles inspire muitos outros profissionais a realizar muitos eventos, principalmente no ano que vem – 2009 - o ANO DA BIOLOGIA.

Neste ano, o Dia de Darwin em São Paulo será celebrado no dia 16 de fevereiro sábado. Ingresso do Museu de Zoologia da USP é de R$ 2,00 (meia entrada para estudantes e idosos). Será o dia todo com palestra, mesa redonda e filme.

Pela manhã: 11h
- palestra com Nelio Bizzo (FEUSP) - "A teoria hereditária de Darwin".
Pela tarde: 14h
- mesa-redonda
Mário de Pinna - "Padrões na natureza e a teoria evolutiva."
Mário de Vivo - "Biogeografia e a teoria evolutiva."
Hussam Zaher - "Tempo geológico e a teoria evolutiva."

A palestra e a mesa-redonda serão transmitidas pela internet, através do serviço de IPTV da USP. Perguntas aos palestrantes podem ser encaminhadas para o email: darwin.mzusp@gmail.com (colocar "pergunta" no assunto do e-mail).
Mais tarde: 16h - Projeção do documentário "Darwin nos Andes".
Além disso haverá oficinas de Biodiversidade e Seleção Natural para as crianças.

Paulistanos esse evento é imperdível! Afinal o que são 1,99 Reais por 1,99 centenas para Darwin.
Aproveitem o Dia de Darwin no Rio de Janeiro e em São Paulo pessoal!! E os outros Estados vamos animar para as festividades biológicas desse ano e do ANO DA BIOLOGIA no Brasil.
Feliz DIA de DARWIN!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

2009 o "ANO DA BIOLOGIA"

O ano de 2005 foi considerado pela UNESCO como o "Ano Mundial da Física" em comemoração aos trabalhos de Albert Eisten publicados em 1905. Pelo mundo todo houve comemorações e tributos. Uma ampla variedade de eventos bem sucedidos permitiram que o entusiasmo dos físicos contagiasse muitas platéias diferentes ao longo do mundo.

Será que a Biologia tem alguma data assim tão cientificamente importante? Mas é claro que sim!

Darwin nasceu em 1809 e 50 anos depois publicou "A Origem das Espécies" em 1859. O livro que se esgotou no dia de seu lançamento é tão importante que ganhou em 2006 até um biografia própria.

Em "A Origem das Espécies de Darwin - Uma Biografia" a autora Janet Browne mostra como A Origem das Espécies pode reivindicar para si o papel de maior livro científico já escrito no mundo.

A revolução darwinista é ao mesmo tempo científica e filosófica, e uma não poderia ter ocorrido sem a outra. Foram os preconceitos filosóficos dos cientistas, mais do que a falta de evidências científicas, que impediu de ver como a teoria poderia realmente funcionar. Mas esses preconceitos com relação à filosofia que tinham de ser eliminados possuíam raízes profundas demais para ser deslocados pelo simples brilhantismo filosófico. Foi preciso um irresistível desfile de fatos científicos obtidos com muita dificuldades para forçar os pensadores a levarem a sério a nova perspectiva proposta por Darwin.

Quase todo componente do sistema de crenças do ser humano moderno é afetado, de alguma maneira, por uma ou outra das inovações conceituais de Darwin. Sua obra como um todo é o fundamento de uma nova filosofia da biologia, que se desenvolve rapidamente. Não pode haver dúvida de que a maneira de pensar de toda pessoa ocidental moderna foi profundamente afetada pelo pensamento filosófico de Darwin. Então, não existe forma melhor de reconhecer a extraordinária contribuição de Charles Robert Darwin para a ciência moderna do que fazermos do ano de 2009 o "ANO DA BIOLOGIA".

Além disso, algo que poucos lembram, mas 1809, o ano em que Darwin nasceu, é a data da publicação do "Filosofia Zoológica", o livro em que Jean-Baptiste Lamarck apresentou sua teoria da evolução. Lamarck é muito injustiçado atualmente, pois ficou conhecido como o homem que errou a teoria da evolução. Mas foi Lamarck quem começou a usar o termo “Biologia” para designar a ciência que estuda os seres vivos e foi ele também que fundou os estudos de paleontologia dos invertebrados. Ele foi uma dos principais transformistas que defendiam que os seres vivos mudam ao longo do tempo, evoluem. E assim como Darwin ele também tem uma data de vida relacionada à data de publicação de seu livro, pois Lamarck morreu em 1829.

Então em 2009, Darwin fará 200 anos, o "Origem das Espécies" fará 150 anos, o "Filosofia Zoológica" fará 200 anos e Lamarck fará 180 de falecimento. Simplesmente é motivo de sobra para fazermos de 2009 um excelente oportunidade para promover exposições, cursos, congressos, palestras, publicações, blogs e outras atividades relacionadas com a Biologia, sua história e filosofia.

A Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia está convidando todos seus associados, historiadores, educadores e demais organizações para somar esforços para fazer do ano de 2009 o "ANO DA BIOLOGIA". E ela se empenhará, colaborando com outras entidades, para desenvolver um grande número de atividades comemorativas ao longo de 2009 de maneira que biologia evolutiva possa ser entendida de forma adequada como parte do conhecimento científico da atualidade.

Peço para que todos aqueles seres vivos, cientistas, filósofos, historiadores, professores, alunos, principalmente aqueles dos centros acadêmicos somem esforços para divulgar e biologizar o ano de 2009. Que já é no ano que vem!!! E que não existem mobilizações nem manisfestações nesse sentido, além da Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia.

E para aqueles que acham que temos muito tempo é bom lembrarmos que nesse 2008 que acabamos de começar vamos comemorar 150 ano que Charles Lyell e Joseph Dalton Hooker fizeram com que o artigo de Darwin e Wallace fosse apresentado no encontro da Sociedade Linnaeana em 1858. Justamente o artigo que apresentou ao mundo a Teoria da Seleção Natural. É bom já irmos esquentando as velinhas de comemorações.